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›› Reprodução Assistida e Espiritismo


Questionado recentemente a respeito da relação entre pesquisas com células-tronco e o Espiritismo, elaboramos algumas reflexões sobre o tema baseadas na obra de Kardec. A questão da posição espírita sobre pesquisas com células-tronco é uma das que merecem reflexão e não se encontra resposta definitiva. Mas é a dúvida que impulsiona o progresso. Quem não se angustia, não evolui.

Existem perguntas cujas respostas não são imediatas, e, quando ocorrem, elas são provisórias até que novos fatos e descobertas possam corrigi-las ou aperfeiçoá-las. Este é o mote da ciência e, se o Espiritismo deseja ser enquadrado dentro do campo científico, precisa conviver com tais dúvidas e estar disposto a se modificar frente a novos conceitos. Caso contrário permanecerá apenas importante dentro do campo religioso e abrirá portas para que outra doutrina ocupe seu lugar.

Sobre o Espiritismo ser favorável ou contra a pesquisa sobre células-tronco, esta é uma pergunta que nem haveria razão de existir. Quem se posiciona são as pessoas. O Espiritismo é uma filosofia e, como tal, reflete sobre as questões humanas. Pode-se questionar se o Espiritismo é ciência ou não (próprio Kardec teve dúvidas a respeito disso), mas é fato que ele surgiu através de uma pesquisa observacional realizada por Allan Kardec. Ora, um conhecimento que se originou a partir de um trabalho de campo jamais poderia questionar qualquer tipo de experimentação que se coloque dentro dos limites éticos.

Nosso mundo se desenvolveu muito desde a passagem de Kardec pela Terra e novos conhecimentos foram incorporados à nossa rotina. É preciso refletir com consciência a respeito de muitos deles, e caso se deseje um posicionamento pessoal baseado no conhecimento espírita, apoiar-se sabiamente nos textos básicos que definem o Espiritismo. Jamais poderíamos imaginar o espírita contrário a qualquer pesquisa científica, desde que respeitados os limites éticos de cada uma. Isso vale para a pesquisa com células-tronco embrionárias. Kardec, um pesquisador, é bem claro sobre o seu posicionamento a respeito da ciência na obra “A Gênese”. Afirma que, caso em algum momento a ciência venha a desmentir alguma afirmação feita por ele, quem deveria se modificar era o Espiritismo e não a ciência. Só assim a fé por ele proporcionada poderia encarar a razão face a face em qualquer época da humanidade. Caso contrário seria apenas mais uma religião dogmática.

Sobre a questão da existência ou não de um Espírito no momento da fecundação assistida, não há nada que prove ou desminta que no momento da fecundação, fora do útero materno, exista um Espírito encarnante. O que Kardec coloca é que, quando há um Espírito encarnante, este se liga ao corpo no momento da fecundação, através de uma expansão do seu perispírito. Mas não afirma que em toda fecundação exista um Espírito e nem que esta deva ocorrer exclusivamente dentro do útero. Ainda mais, diz-nos que em muitas ocasiões o feto se desenvolve apenas pelo seu lado biológico, sem Espírito encarnante, originando natimortos. A justificativa apontada para isso seria uma necessária provação para os pais.

Portanto, a fecundação fora do útero materno seria possível tanto para um feto com Espírito encarnante como para um destinado a não sobreviver.

Por outro lado, Kardec não afirma em nenhum momento que apenas no momento da fecundação o espírito pode se unir ao corpo. Ele afirma que no momento da fecundação isso ocorre, mas não somente neste. Este raciocínio deve ser aplicado caso a clonagem humana seja possível, o que não o é até o momento. Caso ela não seja realmente possível, uma explicação poderia ser extraída deste conceito: a impossibilidade de ligação do complexo perispírito-espírito com o corpo. Caso a clonagem seja possível, novos conhecimentos espíritas precisam ser incorporados à doutrina sobre um momento alternativo que o espírito possa se unir ao corpo, sendo isso uma verdade.

Também entendemos que o fato da fecundação se dar fora do útero não interferirá em nada no processo de encarnação, pois este ovo gerado será implantado no útero materno e se desenvolverá normalmente. Kardec afirma que o processo de encarnação só se completa no momento do nascimento. Ainda mais, com o aperfeiçoamento das técnicas reprodutivas, espera-se que o processo de gerar novas vidas seja mais aperfeiçoado e menos sujeito a erros, como os que ocorrem de maneira natural. O progresso deve trazer o benefício de gerar novas vidas com menos dor, menos sofrimento, menos angústia e menos erros.

Alguns ainda imaginam o absurdo de espíritos ficarem “congelados” com os embriões destinados à reprodução. Ora! Kardec já informava que a ligação do complexo perispírito-espírito com o corpo se completa por ocasião do nascimento. Baseado neste conceito, se o embrião não se desenvolver e, portanto, não oferecer condições de vida, não poderia haver a permanência do complexo perispírito-espírito no corpo físico.

As questões sobre reprodução assistida, células-tronco e clonagem humana são intrigantes e levam ao debate. Não há respostas definitivas para nenhuma delas, mas entendemos ser as apresentadas bastante plausíveis dentro da lógica de Kardec.

Reprodução Assistida, Células-Tronco e Clonagem Humana: Uma Reflexão Baseada em Kardec,

Mauro Gomes

Reprodução Assistida

1. Reprodução significa repetir a produção, copiar, refazer. A reprodução não tão somente a fecundação, mas o conjunto de todos aqueles atos realizados para a geração dos novos indivíduos até o seu nascimento.

2. Reprodução assistida corresponde a uma forma de intervenção dos médicos para aumentar a capacidade do casal de gerar ou ser capaz de fazer vir à luz uma criança. Para a Dra. Marlene Nobre, a reprodução assistida engloba todas as técnicas que visam obter uma gravidez sem a ocorrência de uma relação sexual.

3. A intervenção médica pode se dar:

a) Indução à ovulação ─ através de medicamentos

b) Inseminação artificial ─ São selecionados previamente os espermatozóides que são colocados artificialmente na vagina para a fecundação. A formação do embrião não se dá pelo processo natural, isto é, com o ato sexual.

c) Fertilização in vitro (Bebê de Proveta) ─ Nesse caso, após a indução à ovulação, os oócitos são retirados da mãe e colocados junto aos espermatozóides selecionados para que se realize, normalmente, a fertilização in vitro. Após a formação do embrião, este é transferido para o útero.

4. Momento da união da alma ao corpo

a) Reprodução natural ─ A concepção do ser humano se dá no momento da fecundação.

b) Reprodução assistida

1) Marlene Nobre defende a tese de que os Espíritos se ligam ao corpo no momento em que forma o zigoto, seja na fecundação natural, seja na fertilização in vitro.

2) Para Durval Ciamponi, o embrião, enquanto na proveta ou congelado, não é um ser humano. Em seu estudo, conclui que a vida do ser humano começa a partir do momento da união da alma ao corpo e não na fecundação ou da fertilização in vitro.

Cópia de trechos do livro Reprodução Assistida à Luz do Espiritismo, de Durval Ciamponi. São Paulo: FEESP, 2001.

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