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›› RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE.


Entrevista com ALEXANDER MOREIRA ALMEIDA – Revista O REFORMADOR – Federação Espírita Brasileira – julho/2014.

 

REFORMADOR: Como surgiu a oportunidade de realizar pesquisas sobre assuntos espíritas em ambiente acadêmico?

ALEXANDER: A primeira oportunidade surgiu há quase vinte anos, em 1995, quando eu ainda era acadêmico de Medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Tudo começou de modo muito simples. Naquela época, eu já me interessava pelas relações entre Ciência e Espiritualidade e era bolsista de iniciação científica no Departamento de Patologia. O que gerou a primeira ideia de pesquisa em espiritualidade foram duas longas matérias sobre curas espirituais, notadamente cirurgias espirituais, publicadas em uma revista semanal e em um jornal de circulação nacional. O que me impressionou foi o fato de que os dois artigos, abordando o mesmo tema, tenham chegado a conclusões tão divergentes: um concluiu que era tudo fraude e charlatanismo, e o outro, que era algo verdadeiro e muito eficaz. Ao tentar entender a causa de tal discrepância, percebi o mesmo problema nas duas matérias: os autores não apresentavam evidências convincentes que embasassem as conclusões a que chegaram. Percebi que as duas matérias eram frutos de preconceito, no sentido etimológico da palavra: uma opinião, “quer favorável que desfavorável, concebida sem exame crítico”, formada, a priori, sem maior conhecimento” (Dicionário Houaiss). Ao examinar o que comumente se escrevia ou se falava sobre as relações entre espiritualidade e saúde, percebi que, na maioria das vezes, eram opiniões preconcebidas, favoráveis ou desfavoráveis, sem conhecimento ou exame mais detalhado baseados em investigações rigorosas. Com base nesta constatação, percebi que, antes de investigar a eficácia de supostas cirurgias espirituais, seria importante investigar se eram cirurgias reais ou fraudulentas. Assim, resolvi propor à minha orientadora de iniciação científica, uma professora de Patologia, que realizássemos um estudo simples sobre cirurgia espiritual: entrevista de pacientes antes e depois da cirurgia, acompanhamento das cirurgias e coleta para análise do material, supostamente extraído do corpo dos pacientes. Assim foi feito, eu e outra acadêmica de Medicina fomos  a Abadiânia (GO) para investigar as cirurgias feitas pelo médium João Teixeira de Farias, conhecido como João de Deus.

E você chegou a avaliar as citadas cirurgias?

Basicamente verificamos que as cirurgias eram reais, que ocorriam incisões verdadeiras sem nenhum procedimento anestésico ou antisséptico identificado. Apesar disso, a maioria dos pacientes não relatava dor e não identificamos casos de infecção. A análise do material extraído mostrou que eram tecidos compatíveis com os locais de onde teriam sido retirados, mas não eram tecidos patológicos. Concluindo: embora não tenha sido possível investigar a eficácia do tratamento, constatou-se que as cirurgias eram reais e, habitualmente, não causavam dor nem infecções. Este estudo foi apresentado em diversos congressos médicos, suscitando interessantes discussões. Por fim, foi publicado na Revista da Associação Médica Brasileira (v. 46, n.3, pp. 194-200, 2000), artigo que despertou grande interesse, já tendo sido acessado mais de 30 mil vezes. Ao me formar, fui fazer residência de Psiquiatria na USP, onde encontrei dois professores que já estudavam as relações entre Espiritualidade e Psiquiatria. Assim, junto com eles e um outro residente, fundamos um grupo de estudos de espiritualidade no Instituto de Psiquiatria da USP. Neste grupo, que se chamava Neper e atualmente se chama ProSer, pudemos nos aprofundar nos estudos científicos existentes na área, resultando no doutorado que fiz, logo após terminar a residência, investigando a saúde mental de médiuns e a distinção entre experiências espirituais saudáveis e transtornos mentais. A tese foi defendida em 2005 e se chama “Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas”. Ao término do doutorado, tivemos a oportunidade de realizar o pós-doutorado na Duke University (EUA), com o principal pesquisador mundial na interface Medicina e Espiritualidade: Harold Koenig. Por fim, voltando ao Brasil em 2006, comecei a trabalhar como professor de Psiquiatria na Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF), onde fundamos o Nupes – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde -, local em que realizamos atualmente nossas pesquisas. Importante destacar que nos interessamos por investigar a espiritualidade como um todo e não apenas temáticas ligadas ao Espiritismo.

Seria interessante relacionar os requisitos necessários para se realizar uma pesquisa com fundamentos científicos.

A Ciência como um todo, e principalmente quando se dedica a temas polêmicos como espiritualidade, deve ser uma investigação não dogmática, em que se unam um grande rigor metodológico a uma grande abertura para investigação de todo tipo de fenômenos e hipóteses que se apresentem de forma séria e ponderada. Acho que o grande segredo está no equilíbrio delicado entre o rigor e abertura, em trilhar o estreito e desafiador caminho entre a negação dogmática e a credulidade ingênua. É de grande importância um rigoroso treinamento científico, conhecer a literatura científica sobre o tema, produzida por diversas áreas do conhecimento, pois uma abordagem interdisciplinar é essencial para uma compreensão mais abrangente da espiritualidade. O objetivo central deve ser a busca da verdade e não a promoção de tal ou qual grupo ou corrente filosófica ou religiosa. Por isso, em nosso grupo de pesquisas, temos pessoas de várias vertentes (católicos, protestantes, espíritas, agnósticos, espiritualistas sem religião, etc.) e de várias áreas acadêmicas (Medicina, História, Filosofia, Psicologia, Estatística, entre outras).

E quais os temas que são focos de pesquisa?

Consideramos as experiências espirituais como partes constituintes da experiência humana que têm ocorrido nas mais diversas culturas ao longo da História. Assim, não estão restritas a um grupo específico e devem ser fruto de investigação científica como qualquer outro fenômeno da natureza. Dividimos didaticamente as pesquisas que realizamos em três grupos: Epidemiologia da Religiosidade e Saúde – investiga quanto às diversas formas de envolvimento religioso (por exemplo: frequência a serviços religiosos, crenças, práticas de leituras religiosas ou orações) influenciam a saúde (como o uso de drogas, a qualidade de vida, a ocorrência de depressão, suicídio ou mortalidade); Experiências Religiosas e Espirituais – investigação interdisciplinar das experiências religiosas e espirituais (por exemplo: mediunidade, experiência de quase morte ou de “conversão”) em seus vários aspectos (fenomenológicos, neurofisiológicos, genéticos, psicológicos, psicopatológicos, fatores precipitantes, efeitos a longo prazo etc.); História e Filosofia das Pesquisas sobre Espiritualidade – estuda os aspectos históricos e filosóficos das diversas tentativas de pesquisa científica da espiritualidade. No momento, estamos pesquisando William James e Allan Kardec. Analisamos também as relações entre Ciência e Espiritualidade, o impacto da Espiritualidade na atividade científica e a postura da comunidade científica perante a espiritualidade.

As pesquisas têm sido apresentadas em programas de pós-graduação?

O Nupes faz parte do programa de pós-graduação em saúde da Faculdade de Medicina da UFJF, com alunos de mestrado e doutorado, além de bolsistas de iniciação científica e de pós-doutorado. Já tivemos sete defesas de mestrado e doutorado de pesquisadores ligados ao Nupes. Há muitos outros programas de pós-graduação no Brasil e no Exterior com teses e dissertações sobre o tema. A espiritualidade já faz parte dos temas de pesquisas, legitimados na comunidade acadêmica. O essencial é o rigor e a seriedade das investigações.

E as publicações têm sido feitas em revistas acadêmicas?

Sim. Harold Koenig, em uma ampla revisão identificou mais de 3.300 pesquisas originais, envolvendo temas ligados à espiritualidade, publicadas no meio acadêmico. O Brasil tem tido crescente e destacada participação nas publicações internacionais na área de espiritualidade e saúde. Já há, portanto, muita pesquisa publicada em boas revistas científicas, mas muitas pessoas, mesmo no meio acadêmico, ainda desconhecem toda a grande massa de estudos existentes na área.

Poderia sintetizar as conclusões de uma pesquisa que o tenha sensibilizado em especial?

Há vários achados que chamaram muito minha atenção, por exemplo, quanto a religiosidade é um elemento de grande importância na vida de muitas pessoas e quanto as ajuda a lidar com situações difíceis, como as doenças graves. Por outro lado, também me sensibilizou ver como o uso inadequado da religião pode também estar associado a mais depressão e pior qualidade de vida. Outro tipo de estudo que despertou meu interesse, de modo particular, foi a respeito dos que buscaram o entendimento das experiências espirituais, como a mediunidade. Nesta linha, tem-me sido de particular interesse a compreensão de como o cérebro se comporta durante estas experiências, bem como o sofrimento que muitas pessoas tiveram quando começaram a ter experiências mediúnicas e não compreendiam o que ocorria, temendo que fossem doenças mentais graves ou influências demoníacas.

Alguma mensagem a espíritas interessados em pesquisas?

O Espiritismo, por ter surgido da proposta de Allan Kardec de realizar investigações científicas de fenômenos espirituais, tem grande ênfase nas relações entre Ciência e Espiritualidade. Assim, é muito comum encontrar espíritas interessados nesta área. Alguns dos passos que eu recomendaria: estudo rigoroso e criterioso das pesquisas de boa qualidade, já feitas no tema de interesse. É preciso ler os artigos científicos no original e não apenas o que se escreveu sobre eles. Muito cuidado com as informações divulgadas na mídia leiga, pois são muitas vezes imprecisas. Com o intuito de permitir fácil acesso a pesquisas de qualidade em espiritualidade, criamos a Bves – Biblioteca Virtual em Espiritualidade e Saúde – e a TV Nupes no Youtube.  Evitar o entusiasmo irrefletido e o proselitismo. A meta do cientista deve ser a busca da verdade pela investigação e compreensão do universo. Assim, não é possível uma atitude dogmática, é preciso estarmos abertos para rever todas as nossas premissas e hipóteses com base nos dados que obtivermos e argumentos que nos forem propostos. Buscar uma boa formação científica, visando a dominar diversos métodos de investigação, tornar-se um bom cientista, pois, muitas vezes, é cobrado mais rigor nas pesquisas em espiritualidade do que em outros temas. Coragem, determinação e persistência, pois estas virtudes, se exercidas com sabedoria, permitem, progressivamente, a realização de coisas que nem sonhávamos no início de nossas caminhadas.

 

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